Quantos sonhos em sonhos acordo aterrado
A terrores noturnos minha alma se leva
É um insight soturno, é o futuro passando
Na velocidade terrível da queda
Na velocidade terrível da queda
Ante o colapso final a vertigem
Próximo ao chão a penúltima descoberta
Que a lógica violenta das cores tinge
A velocidade terrível da queda
A velocidade terrível da queda
Como cair do céu é tão simples
Queda que a tudo e a todos transtorna.
Ah! As bombas, a chuva, os anjos e os loucos
O mundo todo na velocidade terrível da queda
O mundo todo na velocidade terrível da queda
Resvalando em abismos um pôr-do-sol furioso
Que a sensação de perda ao ver exagera
É o desespero vermelho de um apocalipse luminoso
Ejaculado da velocidade terrível da queda
Ejaculado da velocidade terrível da queda
Diante do medo um sorriso aeróbico
Nas bochechas a caimbra de uma alegria incompleta
Nada como um sorriso burro e paranóico
Para não perceber a velocidade terrível da queda
Para não perceber a velocidade terrível da queda
Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2008
Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2008
História
Era uma vez.
Havia uma voz.
Tudo era escuro.
No princípio era o Verbo.
E então.
Para sempre.
Que.
Disse o lobo.
Seu pai tinha morrido.
Eles eram pobres.
Ela era uma princesa.
O gigante.
Havia um castelo.
Floresta.
Foi deixado na floresta escura, nu e pobre.
Fez-se a luz.
Hoje está aqui.
A floresta também.
(Carlos Tamm)
Havia uma voz.
Tudo era escuro.
No princípio era o Verbo.
E então.
Para sempre.
Que.
Disse o lobo.
Seu pai tinha morrido.
Eles eram pobres.
Ela era uma princesa.
O gigante.
Havia um castelo.
Floresta.
Foi deixado na floresta escura, nu e pobre.
Fez-se a luz.
Hoje está aqui.
A floresta também.
(Carlos Tamm)
Domingo, 6 de Janeiro de 2008
"Gosto dos venenos mais lentos,
Do café mais amargo,
Das idéias mais loucas,
Dos pensamentos mais complexos,
Dos sentimentos mais fortes!
Você pode ate me empurrar de um penhasco...
Que eu vou dizer: eu amo VOAR!”
(LISPECTOR, Clarice)
Do café mais amargo,
Das idéias mais loucas,
Dos pensamentos mais complexos,
Dos sentimentos mais fortes!
Você pode ate me empurrar de um penhasco...
Que eu vou dizer: eu amo VOAR!”
(LISPECTOR, Clarice)
Terça-feira, 1 de Janeiro de 2008
O Vácuo rumo a estrada da vida
Abra a janela, que eu quero entrar
velocidade a toda,
vamos ultrapassar,
tem bicho na pista
eu quero rodar...
O funil gira e gira
eu sou uma gota,bandida
no fundo,
que quer girar e girar...
Abra a janela,que eu quero sair,
a vida é balela,
quando à espera, se faz demorar...
O vácuo é o gosto do tempo,
a contagem regressiva
para mil gotas expressivas unirem-se diante do teu nariz,
líquido,
boca a dentro, no céu da boca,
Abra a janela, que eu quero ficar
os dentes que restam já não servem pra nada;
O jeito é só esperar!
(Flora Hannah)
velocidade a toda,
vamos ultrapassar,
tem bicho na pista
eu quero rodar...
O funil gira e gira
eu sou uma gota,bandida
no fundo,
que quer girar e girar...
Abra a janela,que eu quero sair,
a vida é balela,
quando à espera, se faz demorar...
O vácuo é o gosto do tempo,
a contagem regressiva
para mil gotas expressivas unirem-se diante do teu nariz,
líquido,
boca a dentro, no céu da boca,
Abra a janela, que eu quero ficar
os dentes que restam já não servem pra nada;
O jeito é só esperar!
(Flora Hannah)
Sábado, 29 de Dezembro de 2007
Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2007
'Quando estiveres na cama e ouvires o uivar dos cães no campo, esconde-te debaixo dos cobertores, não te rias do que eles fazem; eles têm sede insaciável de infinito, como tu, como eu, como os restantes humanos, de rosto pálido e comprido.'
(DUCASSÉ, Isidore)
(DUCASSÉ, Isidore)
Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2007
O marido do Dr. Pompeu
Ninguém estranhou quando, depois de 25 anos de casamento, filhos criados, a mulher do Dr. Pompeu pediu divórcio. As razões dela eram normais para época: não queria mais ser apenas uma dona de casa. Queria viver sua própria vida, estudar psicologia, ter sua própria carreira. Tudo bem. O escândalo, para mostrar como ainda existem preconceitos, foi quando souberam que o Dr. Pompeu, em vez de outra mulher, arranjara um marido.
- Quem diria, hein? O Pompeu.
A própria mulher foi pedir satisfações.
- Pompeu, você enlouqueceu?
- Por quê?
- Todos estes anos, eu nunca desconfiei que você fosse... desses.
- Desses o quê?
- Você sabe muito bem. Um...
A mulher se calou porque nesse exato momento chegou em casa o marido do Dr. Pompeu. Um homem apenas um pouco mais velho do que ele, grisalho, ar respeitável. Um empresário de muito conceito.
- Alô... - disse o marido do Dr. Pompeu, um pouco constrangido.
- Oi! - disse o Dr. Pompeu, alegremente.
- Boa-tarde - disse a mulher, seca.
O marido do Dr. Pompeu foi tomar seu banho, ouvindo a promessa do Dr. Pompeu de que o jantar estaria na mesa num estantinho. Quando a mulher ia começar a falar, o Dr. Pompeu a deteve com um gesto.
- Não é nada do que você está pensando - disse.
- Que eu estou pensando, não, Pompeu. Que todo mundo está pensando.
- Nós temos um acordo. Eu cuido da casa pra ele, supervisiono o trabalho das empregadas, faço as compras, faço tudo para que ele tenha uma vida doméstica organizada e feliz. Em troca, ele me sustenta. Não temos nenhum contato sexual porque nenhum de nós é, como você disse com tanta eloqüencia, desses.
- Mas Pompeu...
- Eu não tenho do que me queixar. Meu padrão de vida melhorou. Ele me dá dinheiro para tudo de que eu preciso. Inclusive, aliás, para pagar sua pensão. E hoje eu posso fazer o que sempre sonhei. Não trabalho, não me preocupo com as contas, com a segurança da família, com todas essas coisas de homem. E o melhor: quando tenho que descrever minha profissão, posso botar "Do lar".
- Mas Pompeu!
- E agora me dá licença que preciso tratar do nosso jantar. Depois do jantar ele vê Jornal Nacional e eu fico esperando a hora da minha novela. Passe bem.
( VERISSIMO, Luis Fernando. O Melhor das Comédias da Vida Privada )
- Quem diria, hein? O Pompeu.
A própria mulher foi pedir satisfações.
- Pompeu, você enlouqueceu?
- Por quê?
- Todos estes anos, eu nunca desconfiei que você fosse... desses.
- Desses o quê?
- Você sabe muito bem. Um...
A mulher se calou porque nesse exato momento chegou em casa o marido do Dr. Pompeu. Um homem apenas um pouco mais velho do que ele, grisalho, ar respeitável. Um empresário de muito conceito.
- Alô... - disse o marido do Dr. Pompeu, um pouco constrangido.
- Oi! - disse o Dr. Pompeu, alegremente.
- Boa-tarde - disse a mulher, seca.
O marido do Dr. Pompeu foi tomar seu banho, ouvindo a promessa do Dr. Pompeu de que o jantar estaria na mesa num estantinho. Quando a mulher ia começar a falar, o Dr. Pompeu a deteve com um gesto.
- Não é nada do que você está pensando - disse.
- Que eu estou pensando, não, Pompeu. Que todo mundo está pensando.
- Nós temos um acordo. Eu cuido da casa pra ele, supervisiono o trabalho das empregadas, faço as compras, faço tudo para que ele tenha uma vida doméstica organizada e feliz. Em troca, ele me sustenta. Não temos nenhum contato sexual porque nenhum de nós é, como você disse com tanta eloqüencia, desses.
- Mas Pompeu...
- Eu não tenho do que me queixar. Meu padrão de vida melhorou. Ele me dá dinheiro para tudo de que eu preciso. Inclusive, aliás, para pagar sua pensão. E hoje eu posso fazer o que sempre sonhei. Não trabalho, não me preocupo com as contas, com a segurança da família, com todas essas coisas de homem. E o melhor: quando tenho que descrever minha profissão, posso botar "Do lar".
- Mas Pompeu!
- E agora me dá licença que preciso tratar do nosso jantar. Depois do jantar ele vê Jornal Nacional e eu fico esperando a hora da minha novela. Passe bem.
( VERISSIMO, Luis Fernando. O Melhor das Comédias da Vida Privada )
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